Ana Kalline e o Clube da Carta

Hoje com tanta tecnologia você acha que alguém ainda troca cartas? Pois saiba que SIIIIMMM muita gente ainda mantém essa prática e eu entrei nessa também.

Ano passado tive a sorte de encontrar por um acaso o perfil da Ana Kalline no instagram. Fiquei encantada primeiro pelo trabalho lindo dela e segundo por saber que ela trocava cartas. Assim que eu soube que ela abriu vagas para o grupo de troca de cartas, na hora me candidatei e assim se abriu um mundo de descobertas sobre a troca de cartas. Sim gente, apesar da velhice eu nunca tive o costume de enviar cartas.

Mas o que me chamou atenção é que essas cartas eram LINDAS e decoradas. Uni o meu vício por criar com a vontade de praticar minha escrita e fazer amizades postais e acabei conseguindo entrar no grupo. Decorar, escrever e receber um envelope por correio é alegria pura, experimente!

Cartas da @annakalline

Então foi nesse mundo de descobertas que resolvi convidar Ana Kalline pra conversar um pouco sobre esse mundo postal.

A Ana além de artista tem um conhecimento grande quando se fala em envio de cartas. Ela tem um grupo no Facebook de troca de cartas que é o Família Clube da Carta, um grupo que ela e mais 5 pessoas trabalham duro pra manter tudo em ordem.

 

 

 

 

“Nós temos o Família desde 2013. Mas a ideia do grupo em si não foi minha. Nós (eu e mais uns 5 membros atuais) participávamos de um grupo literário e nesse grupo a gente discutia várias pautas que não eram necessariamente ligadas a livros. Em algum momento alguém puxou a discussão sobre cartas e uma moça criou um grupo para que pudéssemos reunir todas as pessoas do tópico e começar a troca de cartas. Eu não me recordo o nome do grupo, mas não havia uma organização. Algumas pessoas escreveram e nunca receberam respostas. Depois de alguns meses da criação desse grupo, percebi que a maioria estava ali apenas por curiosidade, inclusive a pessoa que criou. Eu realmente queria que aquilo funcionasse e convidei alguns membros para criarmos um outro grupo, com regras e dinâmico para que a ideia não morresse. Apesar de estar a frente do grupo por 4 anos, eu não teria criado o Família se não fossem os esforços e interesses dessas pessoas. Se hoje nós temos um grupo honesto, que funciona e que não envolve interesses além da propagação do snail mail, é por causa dessas pessoas e de outras chegaram depois para fortalecer e tornar nosso grupo de cartas uma família de verdade.”

Também me interessei em saber dela, da onde surgiu esse amor por cartas. Porque eu por exemplo, que vivi nessa época, nunca tive esse costume.

“Meus pais sempre escreveram cartas porque sempre moramos distante da nossa família. A nossa comunicação com meus avós era apenas por cartas e pra mim era um êxtase, desde a hora que eu sentava pra escrever, ao momento em que a resposta chegava.Às vezes meu avô chegava de surpresa e na bolsa sempre vinha uma carta cheia de histórias e novidades das minhas primas. Se o amor por cartas não nasceu nesse momento, eu já nasci com ele.”

Cada um tem sua motivação para escrever cartas nos dias de hoje, e eu queria saber quais são as dela.

“A uns 6 anos atrás o snail mail começava a aparecer no Brasil e com a falta de costume, talvez, muitas pessoas entravam na comunidade para a troca de coisas e não de cartas e histórias. Com o Família, eu comecei a pregar um snail mail simples e sustentável. Comecei a compartilhar na internet um snail mail handmade. Claro que, como muitos buscavam o comodismo, ganhar presentes as custas dos outros, não foi um grito bem aceito. Meus envelopes feitos de sacola não foram bem aceitos. Minhas decorações de livro ilustrado e revistas não foram bem aceitos. Porque o legal mesmo era mandar uma carta numa caixa cheia de presentes. Mas eu continuei o meu serviço em mostrar que haviam muitas formas de deixar alguém feliz com uma carta. E depois, com o crescimento da comunidade, eu fui vendo meu grito sendo ouvido. As pessoas se preocupando em reciclar, dando máximo valor na carta em si, com pensamentos menos consumistas e preocupados com a sustentabilidade. Eu recebo muitas mensagens de “me inspirei em você”, “me ajuda com minha mail art”, “eu nunca tinha pensado assim até te conhecer”… Eu nunca pensei em parar de escrever cartas. Uma vez eu até pensei “se todos pararem de me escrever, eu continuarei escrevendo porque sempre haverá alguém a espera de uma carta”. Mas, se um dia eu pensar em parar, vou me lembrar das pessoas que toquei e que meu grito não foi em vão. Tenho certeza que não haverá motivação melhor.”

Ana, obrigada pela conversa e por inspirar tanta gente, inclusive eu!

Espero que vocês tenham gostado!

Podem conhecer mais sobre o trabalho da Ana Kalline no instagram @annakalline e @craftserendipity